sábado, 25 de fevereiro de 2012

Cada um seja seu próprio médium


Ouvem-se freqüentemente certos profanos que dizem: “Não tenho necessidade de Deus!” Palavra triste, deplorável, palavra orgulhosa dos que, sem Deus, nada seriam, não teriam existido. Oh!, cegueira do espírito humano, cem vezes pior que a do corpo! Ouvistes algumas vezes a flor dizer: não tenho necessidade de sol? Pois bem, nós o sabemos, Deus não é somente a luz das Almas; é também o amor! E o amor é a força das forças. O amor triunfa de todas as potências brutais. Lembremo-nos de que se a idéia cristã venceu o mundo antigo, se venceu o poder romano, a força dos exércitos, o gládio dos Césares, foi pelo amor! Venceu por estas palavras: “Felizes os que têm a doçura, porque possuirão a Terra!”.
E, com efeito, não há homem, por mais duro, por mais cruel, que não se sinta desarmado contra vós, se estiver convencido de que quereis seu bem, sua felicidade e de que tal desejais de modo real e desinteressado.
O amor é todo-poderoso; é o calor que faz fundir os gelos do cepticismo, do ódio, da fúria, o calor que vivifica as almas embotadas, porém, prestes a desabrochar e a dilatar ao bafejo desse raio de amor.
Notai bem: são as forças sutis e invisíveis as rainhas do mundo, as senhoras da Natureza. Vede a eletricidade! Nada pesa e não parece coisa alguma; entretanto, a eletricidade é uma força maravilhosa; volatiliza os metais e decompõe todos os corpos. O mesmo se dá com o magnetismo, que pode paralisar o braço de um gigante. De igual modo o amor pode dominar a força e reduzi-la; pode transformar a alma humana, princípio da vida em cada um, sede das forças do pensamento. Eis a razão por que Deus, sendo o foco universal, é também o poder supremo. Se compreendêssemos a que alturas, a que grande e nobre tarefa nosso Espírito pode chegar pela compreensão profunda da obra divina, pela penetração do pensamento de Deus em cada ser, seríamos transportados de admiração.
Há homens convencidos de que, prosseguindo nossa ascensão espiritual, acabaremos por perder a existência, para nos aniquilar no Ser supremo. É isso grave erro: porque, ao contrário, se conforme a razão o indica e o confirmam todos os grandes Espíritos, quanto mais nos desenvolvemos em inteligência e em moral, mais a nossa personalidade se afirma. O ser pode estender-se e irradiar; pode crescer em percepções, em sensações, em sabedoria, em amor, sem por isso cessar de ser ele próprio. Não percebemos que os Espíritos elevados são personalidades poderosas? E nós próprios não sentimos que, quanto mais amamos, mais nos tornamos suscetíveis de amar; que quanto melhor compreendemos mais nos sentimos capazes de compreender?
Estar unido a Deus é sentir, é realizar o pensamento de Deus. Mas o poder de sentir essa possibilidade de ação do Espírito não o destrói. Só pode engrandecê-lo. E quando chega a certo grau de ascensão, a Alma se torna, por sua vez, uma das potências, uma das forças ativas do universo; ela se transforma num dos agentes de Deus na obra eterna, porque sua colaboração se estende sem cessar. Seu papel é transmitir as vontades divinas aos seres que estão abaixo dela, atrair a ela, em sua luz, em seu amor, tudo que se agita, luta e sofre nos mundos inferiores. Não se contenta mesmo com uma ação oculta. Muitas vezes encarna, toma um corpo e se torna um missionário, desses que passam quais meteoros na noite dos séculos.
Há outras teorias que consistem em crer que, quando em conseqüência de suas peregrinações, a Alma chega à perfeição absoluta, a Deus, depois de longa permanência no meio das beatitudes celestes, torna a descer ao abismo material, ao mundo da forma, ao mais baixo grau da escala dos seres, para recomeçar a lenta, dolorosa e penosa ascensão que acaba de conseguir.
Tal teoria não é mais admissível que a outra; para aceitá-la seria necessário fazer abstração da noção do Infinito. Ora, essa noção se impõe embora escape à nossa análise. Basta refletir um pouco para compreender que a Alma pode prosseguir a sua marcha ascendente e aproximar-se sem cessar do apogeu, sem jamais atingi-lo. Deus é o Infinito! É o Absoluto! E nunca seremos, em relação a Ele, apesar do nosso progresso, senão seres finitos, relativos, limitados.
O ser pode, pois, evoluir, crescer sem cessar, sem nunca realizar a perfeição absoluta. Isto parece difícil de compreender e, entretanto, que há de mais simples? Deixai-nos escolher um exemplo ao alcance de todos, um exemplo matemático. Tomai uma unidade – e a unidade é um pouco a imagem do ser – e ajuntai-lhe a maior fração que encontrardes. Aproximar-vos-eis do algarismo 2, mas nunca o atingireis. Nós, homens, encerrados na carne, temos grande dificuldade em fazer idéia do papel do Espírito, que contém em si todas as potências, todas as forças do Universo, todas as belezas e esplendores da vida celeste e os faz irradiar sobre o mundo. Mas o que podemos e devemos compreender é que esses Espíritos potentes, esses missionários, esses agentes de Deus, foram, tal qual ora somos, homens de carne, cheios de fraquezas e misérias; atingiram essas alturas por suas pesquisas e seus estudos, pela adaptação de todos os seus atos à lei divina. Ora, o que fizeram todos podemos fazer também. Todos têm os germens de um poder e de uma grandeza iguais ao seu poder e à sua grandeza. Todos têm o mesmo futuro grandioso, e só de nós outros mesmos dependem o desenvolvimento desses germens através de nossas inúmeras existências.
Graças aos estudos psíquicos, aos fenômenos telepáticos, estamos mais ou menos aptos para compreender, desde já, que nossas faculdades não se limitam a nossos sentidos. Nosso Espírito pode irradiar além do corpo, pode receber as influências dos mundos superiores, as impressões do pensamento divino. O apelo do pensamento humano é ouvido; a Alma, quebrando as fatalidades da carne, pode transportar-se a esse mundo espiritual, que é sua herança, seu domínio por vir. Eis por que é necessário que cada qual se torne seu próprio médium, aprenda a se comunicar com o mundo superior do Espírito.
Esse poder tem sido até aqui o privilégio de alguns iniciados. Hoje, é necessário que todos o adquiram e que todo homem chegue a apreender, a compreender as manifestações do pensamento superior. Ele pode chegar aí por uma vida pura e sem mácula e pelo exercício gradual de suas faculdades.

Fonte: Léon Denis - O Grande Enigma - cap.VIII

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