domingo, 5 de fevereiro de 2012

Música

Realmente, a música de hoje que ouvimos tocar nas rádios e cair na boca do povo, nos deixa preocupados. O grande apelo sexual contido nestas músicas e a despreocupação com a arte nos leva a pensar que algo esta acontecendo. Será a falta de artistas ou o mal gosto do povo?
Ouvindo uma entrevista na rádio Gaúcha de Porto Alegre, no programa Polêmica, comandado por Lauro Quadros, aconteceu um grande debate com profissionais da música, cada um com seus argumentos, tanto para um lado como outro, mas pessoalmente chego a conclusão que as músicas produzidas hoje, estão longe daquilo que podemos chamar de arte. Claro, sempre existem excessões, mas que estão cada vez mais raras.
Um artigo que encontrei fala um pouco mais sobre isso:

"Desde os menestréis e trovadores, na Idade Média, se vê, claramente, uma divisão na música. Na Renascença havia a música sacra (composta para ser executada em cultos religiosos), assim como, a profana (composta para ser executada nas tavernas etc). Hoje, há a música erudita e a música popular.
Não são poucas as pessoas - dentre essas, muitos intelectuais - que chamam, erroneamente, toda composição de caráter sinfônico de música clássica. Música clássica seria aquela composta no período clássico, que compreende, na música, aproximadamente os anos dentre 1750 a 1810. O correto, no entanto, seria chamá-la de música erudita, por seu caráter solene e por sua complexidade de formas, texturas e estilos.
 Ainda no classicismo, a música tem, em Wolfgang Amadeus Mozart, um compositor de destaque e relevante importância. Ele escrevia para orquestra, para coral e sua música, além da solenidade necessária aos eruditos, era extremamente complexa para os padrões da época. Mozart, ainda hoje, é considerado um dos maiores gênios da música mundial. Não obstante, o mesmo Mozart era muito popular. Sua música estava intimamente ligada à sua época e, pode-se dizer que, ele, apesar de insatisfeito com sua condição de músico da corte, era o que, atualmente, chamaríamos de sucesso. A arte musical de Mozart, que foi um compositor genuinamente clássico, também era popular. Poderíamos então, chamar de popular, aquela música que a população, em sua maioria, consome. A música de Tom Jobim, por exemplo, foi e é popular. O mesmo Jobim se tornou clássico, na nossa música, pela beleza, pela seriedade de sua obra, por sua arte. Talvez tenhamos aqui um novo divisor de águas: de um lado, música, de outro, falsificações; ou ainda, música e música utilitária. O conceito de música utilitária se aplica àquela música que serve a fins diversos e nem somente artísticos; "A arte foi arte utilitária, antes de se tornar arte - era, por exemplo, imagens de deuses nos templos, adornos nos túmulos, música para banquetes e de dança" (NOBERT, 1995, p. 50.).
A Música, neste contexto, é o que menos importa e serve somente como entretenimento, assim, se estabelece um mercado que não serve de estímulo para o crescimento e mudança da sociedade, somente, como elemento alienador, como um artigo de consumo. É o que Adorno chama de Kulturindustrie.
O termo Indústria Cultural é usado por Adorno para designar a exploração sistemática e intencional de bens culturais com fins comerciais em detrimento da cultura, com o cuidado de evitar uma comparação com uma arte que surja espontaneamente no seio popular, como por exemplo, a arte folclórica. Estabelece-se um mercado, onde as obras de arte são rebaixadas ao nível de simples mercadoria palpável obedecendo à lei da oferta e da procura, negando-lhes, o que para Adorno seria o princípio fundamental da obra de arte; a liberdade. As artes, a música, para ele, buscam a verdade, e somente podem atingi-la se forem concebidas livres.
Desde os meados do século XIX a grande música divorciou-se do consumo. A coerência de seu desenvolvimento está em contradição com as necessidades que se manejam e que ao mesmo tempo satisfazem o público burguês. O gosto público e a qualidade das obras ficaram divorciados.(ADORNO, 2002, pp. 16-7).
 A arte servindo a uma indústria de produção, voltada única e exclusivamente para um público consumidor, que não reflete sobre a obra e espera reconhecer sempre algo familiar na produção artística, de nada contribui para crescimento da sociedade e da própria arte, assim, determina-se um mercado manipulável, injusto, desigual, aberto a toda sorte de interesses e sem função sócio-cultural, levando a arte, a perda de seu caráter artístico. A grande música a que Adorno se refere, é para nós, uma referência de música que valorize a liberdade de criação e não as imposições de um mercado. Não temos aqui, o objetivo de tecer crítica em relação a indústria cultural, e por isso, não nos aprofundaremos em seu conceito, fazemos apenas uso deste princípio adorniano com norte filosófico para nossa pesquisa, traçando, a partir daí, um paralelo com nossa cultura. Assim, gêneros musicais como: o jazz e o choro, tidos historicamente como populares, não o são nem em seus países de origem - Estados Unidos e Brasil respectivamente -, por tanto, música é música, seja ela sinfônica ou improvisadamente jazzística, tocada por uma grande orquestra ou por um simples quarteto com piano, baixo, bateria e saxofone. A questão é distinguir música de imposições mercadológicas. Winton Marsalis, grande trompetista americano, que vai do erudito ao jazz com a mesma fluência, nos traz um depoimento muito elucidativo.
Se nossa noção de arte fosse melhor e nossa noção de história mais forte, não teríamos que aceitar a idéia de que entertainers são artistas. Não tenho nada contra a música pop, mas realmente me ressinto com a pretensão que se atribui ao entretenimento de hoje. Se você vende milhões de discos, talvez esteja realizando uma façanha econômica, mas não artística.(MARSALIS, 2000, pp. 13-4)"

Fonte: Marco Aurélio A. da Silva, é Instrumentista, compositor, pesquisador, professor, arranjador e produtor musical. Bacharel em Música, Especialista em Docência do Ensino Superior e Mestre em Ensino de Ciências do Ambiente.

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