terça-feira, 5 de junho de 2012

Onde esta o céu?


Em geral, a palavra céu designa o espaço indefinido que circunda a Terra, e mais particularmente a parte que está acima do nosso horizonte. Vem do latim coelum, formada do grego coilos,
côncavo, porque o céu parece uma imensa concavidade. Os Antigos acreditavam na existência de muitos céus superpostos, de matéria sólida e transparente, formando esferas concêntricas e tendo a Terra por centro. Girando essas esferas em torno da Terra, arrastavam consigo os astros que se achavam em seu circuito.
Essa idéia, provinda da deficiência de conhecimentos astronômicos, foi a de todas as teogonias, que fizeram dos céus, assim escalados, os diversos degraus da bem-aventurança: o último deles era abrigo da suprema felicidade. Segundo a opinião mais comum, havia sete céus e daí a expressão – estar no sétimo céu – para
exprimir perfeita felicidade. Os muçulmanos admitem nove céus, em cada um dos quais se aumenta a felicidade dos crentes. O astrônomo Ptolomeu10 contava onze e denominava ao último Empíreo11 por causa da luz brilhante que nele reina. É este ainda hoje o nome poético dado ao lugar da beatitude eterna. A teologia cristã reconhece três céus: o primeiro é o da região do ar e das nuvens; o segundo, o espaço em que ficam os astros, e o terceiro, para além deste, é a morada do Altíssimo, a habitação dos que o
contemplam face a face. É conforme a esta crença que se diz que S. Paulo foi alçado ao terceiro céu.
As diferentes doutrinas relativamente ao paraíso repousam todas no duplo erro de considerar a Terra centro do Universo, e limitada a região dos astros. É além desse limite imaginário que todas têm colocado a residência afortunada e a morada do Todo-Poderoso. Singular anomalia que coloca o Autor
de todas as coisas, Aquele que as governa a todas, nos confins da Criação, em vez de no centro, donde o seu pensamento poderia, irradiante, abranger tudo!
A Ciência, com a lógica inexorável da observação e dos fatos, levou o seu archote às profundezas do Espaço e mostrou a nulidade de todas essas teorias. A Terra não é mais o eixo do Universo, porém um dos menores astros que rolam na imensidade; o próprio Sol mais não é do que o centro de um turbilhão
planetário; as estrelas são outros tantos e inumeráveis sóis, em torno dos quais circulam mundos sem conta, separados por distâncias apenas acessíveis ao pensamento, embora se nos afigure tocaremse.
Neste conjunto grandioso, regido por leis eternas – reveladoras da sabedoria e onipotência do Criador – a Terra não é mais que um ponto imperceptível e um dos planetas menos favorecidos quanto à
habitabilidade. E, assim sendo, é lícito perguntar por que Deus faria da Terra a única sede da vida e nela degradaria as suas criaturas prediletas? Mas, ao contrário, tudo anuncia a vida por toda parte e a
Humanidade é infinita como o Universo. Revelando-nos a Ciência mundos semelhantes ao nosso, Deus não podia tê-los criado sem intuito, antes deve tê-los povoado de seres capazes de os governar.
As idéias do homem estão na razão do que ele sabe; como todas as descobertas importantes, a da constituição dos mundos deveria imprimir-lhes outro curso; sob a influência desses conhecimentos novos, as crenças se modificaram; o Céu foi deslocado e a região estelar, sendo ilimitada, não mais lhe pode
servir. Onde está ele, pois? E ante esta questão emudecem todas as religiões.
O Espiritismo vem resolvê-las demonstrando o verdadeiro destino do homem. Tomando-se por base a natureza deste último e os atributos divinos, chega-se a uma conclusão.
O homem compõe-se de corpo e Espírito: o Espírito é o ser principal, racional, inteligente; o corpo é o invólucro material que reveste o Espírito temporariamente, para preenchimento de
sua missão na Terra e execução do trabalho necessário ao seu adiantamento. O corpo, usado, destrói-se e o Espírito sobrevive à sua destruição. Privado do Espírito, o corpo é apenas matéria
inerte, qual instrumento privado da mola que o faz agir; sem o corpo, o Espírito é tudo: a vida, a inteligência. Em deixando o corpo, torna ao mundo espiritual, de onde havia saído para reencarnar.Existem, portanto, dois mundos: o corporal, composto de Espíritos encarnados; e o espiritual, formado dos Espíritos
desencarnados. Os seres do mundo corporal, devido mesmo à materialidade do seu envoltório, estão ligados à Terra ou a qualquer globo; o mundo espiritual ostenta-se por toda parte, em redor de
nós como no Espaço, sem limite algum designado. Em razão mesmo da natureza fluídica do seu envoltório, os seres que o compõem, em lugar de se locomoverem penosamente sobre o solo,
transpõem as distâncias com a rapidez do pensamento. A morte do corpo é a ruptura dos laços que os retinham cativos.
Os Espíritos são criados simples e ignorantes, mas dotados de aptidão para tudo conhecerem e para progredirem, em virtude do seu livre-arbítrio. Pelo progresso adquirem novos conhecimentos, novas faculdades, novas percepções e, conseguintemente, novos gozos desconhecidos dos Espíritos
inferiores; eles vêem, ouvem, sentem e compreendem o que os Espíritos atrasados não podem ver, sentir, ouvir ou compreender. A felicidade está na razão direta do progresso realizado, de sorte
que, de dois Espíritos, um pode não ser tão feliz quanto o outro, unicamente por não possuir o mesmo adiantamento intelectual e moral, sem que por isso precisem estar, cada qual, em lugar distinto.
Ainda que juntos, pode um estar em trevas, enquanto que tudo resplandece para o outro, tal como um cego e um vidente que se dão as mãos: este percebe a luz da qual aquele não recebe a mínima
impressão. Sendo a felicidade dos Espíritos inerente às suas qualidades, haurem-na eles em toda parte em que se encontram, seja à superfície da Terra, no meio dos encarnados, ou no Espaço.
Uma comparação vulgar fará compreender melhor esta situação. Se se encontrarem em um concerto dois homens, um, bom músico, de ouvido educado, e outro, desconhecedor da música, de sentido auditivo pouco delicado, o primeiro experimentará sensação de felicidade, enquanto o segundo
permanecerá insensível, porque um compreende e percebe o que nenhuma impressão produz no outro. Assim sucede quanto a todos os gozos dos Espíritos, que estão na razão da sua sensibilidade. O mundo espiritual tem esplendores por toda parte, harmonias e sensações que os Espíritos inferiores, submetidos à
influência da matéria, não entrevêem sequer, e que somente são acessíveis aos Espíritos purificados.
O progresso nos Espíritos é o fruto do próprio trabalho; mas, como são livres, trabalham no seu adiantamento com maior ou menor atividade, com mais ou menos negligência, segundo sua vontade, acelerando ou retardando o progresso e, por conseguinte, a própria felicidade. Enquanto uns avançam rapidamente, outros permanecem estagnados, durante longos séculos, nas fileiras inferiores. São eles, pois, os próprios autores da sua situação, feliz ou desgraçada, conforme estas palavras do Cristo:
A cada um segundo as suas obras. Todo Espírito que se atrasa não pode queixar-se senão de si mesmo, assim como o que se adianta tem o mérito exclusivo do seu esforço; aos seus olhos, a felicidade
conquistada tem maior apreço.
A suprema felicidade só é compartilhada pelos Espíritos perfeitos, ou, por outra, pelos Espíritos puros, que não a conseguem senão depois de haverem progredido em inteligência e
moralidade. O progresso intelectual e o progresso moral raramente marcham juntos, mas o que o Espírito não consegue em dado tempo, alcança em outro, de modo que os dois progressos acabam por atingir o mesmo nível. Eis por que se vêem muitas vezes homens inteligentes e instruídos pouco adiantados moralmente, e vice-versa.
A encarnação é necessária ao duplo progresso moral e intelectual do Espírito: ao progresso intelectual pela atividade obrigatória do trabalho; ao progresso moral pela necessidade recíproca dos homens entre si. A vida social é a pedra de toque das boas ou más qualidades. A bondade, a maldade, a doçura, a violência, a benevolência, a caridade, o egoísmo, a avareza, o orgulho, a humildade, a sinceridade, a franqueza, a lealdade, a má-fé, a hipocrisia, numa palavra, tudo que constitui o homem de bem ou o perverso tem por móvel, por alvo e por estímulo as relações do homem com os seus semelhantes. Para o homem que vivesse insulado não haveria vícios nem virtudes; preservando-se do mal pelo insulamento, o bem de si mesmo se anularia.
Uma só existência corporal é manifestamente insuficiente para o Espírito adquirir todo o bem que lhe falta e
eliminar o mal que lhe sobra. Como poderia o selvagem, por exemplo, em uma só encarnação nivelar-se moral e intelectualmente ao mais adiantado europeu? É materialmente impossível. Deve ele, pois, ficar eternamente na ignorância e barbaria, privado dos gozos que só o desenvolvimento das
faculdades pode proporcionar-lhe? O simples bom-senso repele tal suposição, que seria não somente a negação da justiça e bondade divinas, mas das próprias leis evolutivas e progressivas da Natureza.
Mas Deus, que é soberanamente justo e bom, concede ao Espírito tantas encarnações quantas as necessárias para atingir seu objetivo
– a perfeição. Em cada existência nova traz o Espírito o que adquiriu nas anteriores, em aptidões, conhecimentos intuitivos, inteligência e moralidade. Cada existência é assim um passo avante no caminho do progresso, a menos que, por preguiça, negligência ou obstinação no mal, não a aproveite, caso em que deve
recomeçar. Dele, portanto, depende aumentar ou diminuir o número de suas encarnações, sempre mais ou menos penosas e laboriosas.
No intervalo das existências corporais o Espírito torna a entrar no mundo espiritual, onde é feliz ou desgraçado segundo o bem ou o mal que fez. Uma vez que o estado espiritual é o estado definitivo do Espírito e o corpo espiritual não morre, deve ser esse também o seu estado normal. O estado corporal é transitório e passageiro. É no estado espiritual sobretudo que o Espírito colhe os frutos do progresso realizado pelo trabalho da encarnação; é também nesse estado que se prepara para novas lutas e toma as
resoluções que há de pôr em prática na sua volta à Humanidade.
A reencarnação pode dar-se na Terra ou em outros mundos. Há entre os mundos alguns mais adiantados onde existência se exerce em condições menos penosas que na Terra, física e moralmente, mas onde também só são admitidos Espíritos chegados a um grau de perfeição relativo ao estado desses mundos.
A vida nos mundos superiores já é uma recompensa, visto nos acharmos isentos, aí, dos males e vicissitudes terrenos. Onde os corpos, menos materiais, quase fluídicos, não mais são sujeitos às moléstias, às enfermidades, e tampouco têm as mesmas necessidades. Excluídos os Espíritos maus, gozam os homens de
plena paz, sem outra preocupação além da do adiantamento pelo trabalho intelectual. Reina lá a verdadeira fraternidade, porque não há egoísmo; a verdadeira igualdade, porque não há orgulho, e a
verdadeira liberdade por não haver desordens a reprimir, nem ambiciosos que procurem oprimir o fraco. Comparados à Terra, esses mundos são verdadeiros paraísos, quais pousos ao longo do
caminho do progresso conducente ao estado definitivo. Sendo a Terra um mundo inferior destinado à purificação dos Espíritos imperfeitos, está nisso a razão do mal que aí predomina, até que
praza a Deus fazer dela morada de Espíritos mais adiantados.
É assim que o Espírito, progredindo gradualmente à medida que se desenvolve, chega ao apogeu da felicidade; porém, antes de ter atingido a culminância da perfeição, goza de uma
felicidade relativa ao seu progresso. A criança também frui os prazeres da infância, mais tarde os da mocidade, e finalmente os mais sólidos, da madureza.
A felicidade dos Espíritos bem-aventurados não consiste na ociosidade contemplativa, que seria, como temos dito muitas vezes, uma eterna e fastidiosa inutilidade. A vida espiritual em todos os seus graus é, ao contrário, uma constante atividade, mas atividade isenta de fadigas. A suprema felicidade consiste no
gozo de todos os esplendores da Criação, que nenhuma linguagem humana jamais poderia descrever, que a imaginação mais fecunda não poderia conceber. Consiste também na penetração de todas as coisas, na ausência de sofrimentos físicos e morais, numa satisfação
íntima, numa serenidade d’alma imperturbável, no amor que
envolve todos os seres, por causa da ausência de atritos pelo
contacto dos maus, e, acima de tudo, na contemplação de Deus e
na compreensão dos seus mistérios revelados aos mais dignos. A
felicidade também existe nas tarefas cujo encargo nos faz felizes.
Os Espíritos puros são os Messias ou mensageiros de Deus pela
transmissão e execução das suas vontades. Preenchem as grandes
missões, presidem à formação dos mundos e à harmonia geral do
Universo, tarefa gloriosa a que se não chega senão pela perfeição.
Os da ordem mais elevada são os únicos a possuírem os segredos
de Deus, inspirando-se no seu pensamento, de que são diretos
representantes.

As atribuições dos Espíritos são proporcionadas ao seu
progresso, às luzes que possuem, às suas capacidades, experiência e
grau de confiança inspirada ao Senhor soberano. Nem favores, nem
privilégios que não sejam o prêmio ao mérito; tudo é medido e
pesado na balança da estrita justiça. As missões mais importantes
são confiadas somente àqueles que Deus julga capazes de as
cumprir e incapazes de desfalecimento ou comprometimento. E
enquanto que os mais dignos compõem o supremo conselho, sob
as vistas de Deus, a chefes superiores é cometida a direção de
turbilhões planetários, e a outros conferida a de mundos especiais.
Vêm, depois, pela ordem de adiantamento e subordinação
hierárquica, as atribuições mais restritas dos prepostos ao
progresso dos povos, à proteção das famílias e indivíduos, ao
impulso de cada ramo de progresso, às diversas operações da
Natureza até aos mais ínfimos pormenores da Criação. Neste vasto
e harmonioso conjunto há ocupações para todas as capacidades,
aptidões e esforços; ocupações aceitas com júbilo, solicitadas com
ardor, por serem um meio de adiantamento para os Espíritos que
ao progresso aspiram.
A encarnação é inerente à inferioridade dos Espíritos,
deixando de ser necessária desde que estes, transpondo-lhe os
limites, ficam aptos para progredir no estado espiritual, ou nas
existências corporais de mundos superiores, que nada têm da
materialidade terrestre. Da parte destes a encarnação é voluntária,
tendo por fim exercer sobre os encarnados uma ação mais direta e
tendente ao cumprimento da missão que lhes compete junto dos
mesmos. Desse modo aceitam abnegadamente as vicissitudes e
sofrimentos da encarnação.
Ao lado das grandes missões confiadas aos Espíritos
superiores, há outras de importância relativa em todos os graus,
concedidas a Espíritos de todas as categorias, podendo afirmar-se
que cada encarnado tem a sua, isto é, deveres a preencher a bem
dos seus semelhantes, desde o chefe de família, a quem incumbe o
progresso dos filhos, até o homem de gênio que lança às sociedades
novos germens de progresso. É nessas missões secundárias que se
verificam desfalecimentos, prevaricações e renúncias que
prejudicam o indivíduo sem afetar o todo.
Todas as inteligências concorrem, pois, para a obra
geral, qualquer que seja o grau atingido, e cada uma na medida das
suas forças, seja no estado de encarnação ou no espiritual. Por toda
parte a atividade, desde a base ao ápice da escala, instruindo-se,
coadjuvando-se em mútuo apoio, dando-se as mãos para alcançar o
zênite.
Assim se estabelece a solidariedade entre o mundo
espiritual e o corporal, ou, em outros termos, entre os homens e os
Espíritos, entre os Espíritos libertos e os cativos. Assim se
perpetuam e consolidam, pela purificação e continuidade de
relações, as verdadeiras simpatias e nobres afeições.
Por toda parte, a vida e o movimento: nenhum canto
do infinito despovoado, nenhuma região que não seja incessantemente
percorrida por legiões inumeráveis de Espíritos radiantes,
invisíveis aos sentidos grosseiros dos encarnados, mas cuja
vista deslumbra de alegria e admiração as almas libertas da matéria.
Por toda parte, enfim, há uma felicidade relativa a todos os
progressos, a todos os deveres cumpridos, trazendo cada um
consigo os elementos de sua felicidade, decorrente da categoria em
que se coloca pelo seu adiantamento.
Das qualidades do indivíduo depende-lhe a felicidade, e
não do estado material do meio em que se encontra, podendo a
felicidade, portanto, existir em qualquer parte onde haja Espíritos
capazes de a gozar. Nenhum lugar lhe é circunscrito e assinalado
no Universo. Onde quer que se encontrem, os Espíritos podem
contemplar a majestade divina, porque Deus está em toda parte.
Entretanto, a felicidade não é pessoal: Se a
possuíssemos somente em nós mesmos, sem poder reparti-la com
outrem, ela seria tristemente egoísta. Também a encontramos na
comunhão de idéias que une os seres simpáticos. Os Espíritos
felizes, atraindo-se pela similitude de gestos e sentimentos, formam
vastos agrupamentos ou famílias homogêneas, no seio das quais
cada individualidade irradia as qualidades próprias e satura-se dos
eflúvios serenos e benéficos emanados do conjunto. Os membros
deste, ora se dispersam para se darem à sua missão, ora se reúnem
em dado ponto do Espaço a fim de se prestarem contas do
trabalho realizado, ora se congregam em torno dum Espírito mais
elevado para receberem instruções e conselhos.
Embora os Espíritos estejam por toda parte, os
mundos são focos onde de preferência se reúnem, em virtude da
analogia existente entre eles e os que os habitam. Em torno dos
mundos adiantados abundam Espíritos superiores, como em
torno dos atrasados pululam Espíritos inferiores. Cada globo tem,
de alguma sorte, sua população própria de Espíritos encarnados e
desencarnados, alimentada em sua maioria pela encarnação e
desencarnação dos mesmos. Esta população é mais estável nos
mundos inferiores, pelo apego deles à matéria, e mais flutuante
nos superiores. Destes últimos, porém, verdadeiros focos de luz e
felicidade, Espíritos se destacam para mundos inferiores a fim de
neles semearem os germens do progresso, levar-lhes consolação e
esperança, levantar os ânimos abatidos pelas provações da vida.
Por vezes também se encarnam para cumprir com mais eficácia a
sua missão.
Nessa imensidade ilimitada, onde está o Céu? Em toda
parte. Nenhum contorno lhe traça limites. Os mundos adiantados
são as últimas estações do seu caminho, que as virtudes franqueiam
e os vícios interditam. Ante este quadro grandioso que povoa o
Universo, que dá a todas as coisas da Criação um fim e uma razão
de ser, quanto é pequena e mesquinha a doutrina que circunscreve
a Humanidade a um ponto imperceptível do espaço, que no-la
mostra começando em dado instante para acabar igualmente com
o mundo que a contém, não abrangendo mais que um minuto na
Eternidade!
Como é triste, fria e glacial essa doutrina quando nos
mostra o resto do Universo, durante e depois da Humanidade
terrestre, sem vida, nem movimento, qual vastíssimo deserto
imerso em profundo silêncio! Como é desesperadora a perspectiva
dos eleitos votados à contemplação perpétua, enquanto a maioria
das criaturas padece tormentos sem-fim! Como lacera os corações
sensíveis a idéia dessa barreira entre mortos e vivos! As almas
ditosas, dizem, só pensam na sua felicidade, como as desgraçadas,
nas suas dores. Admira que o egoísmo reine sobre a Terra, quando
no-lo mostram no Céu?
Oh! quão mesquinha se nos afigura essa idéia da
grandeza, do poder e da bondade de Deus! Quanto é sublime a idéia
que dEle fazemos pelo Espiritismo! Quanto a sua doutrina
engrandece as idéias e amplia o pensamento! Mas, quem diz que ela
é verdadeira? A Razão primeiro, a Revelação depois, e, finalmente, a
sua concordância com os progressos da Ciência. Entre duas
doutrinas, das quais uma amesquinha e a outra exalta os atributos de
Deus; das quais uma só está em desacordo e a outra em harmonia
com o progresso; das quais uma se deixa ficar na retaguarda
enquanto a outra caminha, o bom-senso diz de que lado está a
verdade. Que, confrontando-as, consulte cada qual a consciência, e
uma voz íntima lhe falará por ela. Pois bem, essas aspirações íntimas,
são a voz de Deus, que não pode enganar os homens.
Mas, então, por que Deus não lhes revelou de princípio
toda a verdade? Pela mesma razão por que se não ensina à infância
o que se ensina aos de idade madura. A revelação limitada foi
suficiente a certo período da Humanidade, e Deus a proporciona
gradativamente ao progresso e às forças do Espírito. Os que
recebem hoje uma revelação mais completa são os mesmos Espíritos
que tiveram dela uma partícula em outros tempos e que de então
por diante se engrandeceram em inteligência.
Antes de a Ciência ter revelado aos homens as forças
vivas da Natureza, a constituição dos astros, o verdadeiro papel da
Terra e sua formação, poderiam eles compreender a imensidade do
Espaço e a pluralidade dos mundos? Teriam podido identificar-se
com a vida espiritual? conceber depois da morte uma vida feliz ou
infeliz senão num lugar circunscrito e sob uma forma material?
Não; compreendendo mais pelos sentidos do que pelo raciocínio,
o Universo era demasiado vasto para seu cérebro; era preciso
reduzi-lo a menores proporções para acomodá-lo ao seu ponto de
vista, correndo o risco de ampliá-lo mais tarde. Uma revelação
parcial tinha sua utilidade; então era razoável, mas hoje insuficiente.
O erro é daqueles que, não levando em conta o progresso das
idéias, crêem poder governar homens maduros quais se fossem
crianças.

Allan Kardec
Fonte: Revista Espírita de Outubo de 1865_FEB

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