terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Origens da Umbanda _ Uma sessão dirigida por Zélio F. de Moraes

 Prosseguindo com os nossos artigos sobre as origens da Umbanda, transcrevemos o primeiro relato escrito da Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, em forma de crônica, publicado no ano de 1924 no periódico carioca “A Noite” pelo jornalista e escritor Eliézer Leal de Souza. Um ano depois foi lançado o livro com o nome “No mundo dos Espíritos, Inquérito da A Noite ” compilação de todos os artigos e crônicas escritos durante o ano de 1923 sobre sessões e manifestações espíritas na cidade do Rio de Janeiro.

 “Iniciamos, hoje, com o artigo em seguida estampado, a publicação dos resultados do nosso largo inquérito sobre o espiritismo, feito pelo nosso companheiro de redação Leal de Souza, dentro das normas de serena imparcialidade, prescritas pela A NOITE. “

(“A NOITE “, 7 de Janeiro de 1924)

O Centro Nossa Senhora da Piedade

A falange da rua Laura de Araujo.-Um louco em uma sessão espírita.


Atravessando em procura do arrebalde das Neves, a cidade de Niterói, perguntávamos , no bonde, a quanto passageiro ficava ao alcance de nossa voz:

- Conhece, por ventura , nas Neves, a farmácia do Sr. Zélio?

- Não.

- E o centro espírita Nossa Senhora da Piedade ?

Quase ao termo da viagem, porém, ouvimos, formulada pelo Sr. Eurico Costa, a dupla resposta afirmativa, e, em companhia desse gentil cavalheiro, cujo destino, nessa noite, era o nosso, fomos, primeiro, à farmácia do presidente daquele centro, e, em seguida, com o farmacêutico, à sede da associação procurada.

Varando, por um corredor, filas compactas de gente, conseguimos aproximarmo-nos da mesa mediúnica, ocupando uma cadeira, à esquerda do presidente, ao lado de uma senhorita que vigiava os médiuns, pronta a socorrê-los, ou auxiliá-los, em caso de transe violento.

Não conhecíamos uma só das pessoas presentes, e a nossa entrada não foi vista pelo diretor da reunião, Dr José Meirelles, que, no momento, de olhos fechados, fazia uma prece.

Apenas ocupamos o lugar designado pelo nosso condutor, ao findar a oração do dirigente, a senhorita Zaira Heintze, num grande pulo, e em transe, tentou levantar-se e sair, mas os seus movimentos eram desordenados e incoerentes. Auxiliou-a a senhorita de vigia, e a médium, atirando a cabeça para trás, sacudia, como um penacho, os cabelos cortados, e batia com as mãos sobre a mesa, e, a babar-se, continuou a bater com as mãos. Nessa incômoda posição permaneceu por mais de meia-hora, discutindo, por vezes, com o Sr. Meirelles. As suas frases, porém, não passavam de repetições pejorativas ou raivosas das do diretor.

- És um espírito infeliz!

- Qual infeliz, seu hipócrita.

Em meio desse combate, entrou em transe o Sr. Zélio de Moraes e, saudado como sendo o caboclo das Sete Encruzilhadas, chefe espiritual do famoso centro, fez, em linguagem enérgica, uma vibrante exortação, suplicando e ordenando a intensificação da fé.

O médium, nesse transe, parecia dividido, em seu corpo, em duas partes, pela desconexão de seus movimentos. Tinha ereto e firme o busto, alçada a cabeça, o rosto torneado em desenho vigoroso, os braços agitados em gestos apropriados às expressões de seus lábios, mas da cintura pra baixo, um temor convulsivo, abalando-o, fazia-lhe bater com os pés nas tábuas do chão, produzindo um rumor apressado de caixa de guerra em célere ruflo.

Surpreendendo o Dr. Meirelles, o médium pediu parar apertar-nos a mão, e, sob olhar espantado da assistência, acercando-nos o Sr. Zélio, ouvimos:

- Pode dizer que apertou a mão de um espírito. A minha esquerda, está uma irmã que entrou aqui como tuberculosa e à minha direita um irmão vindo do hospício. Curou-os, aos dois, Nossa Senhora da Piedade. Pode ouvi-los. Junto ao senhor, naquele canto, está o espírito de uma senhora, que diz ser sua mãe.

- Deve ser engano. Nossa mãe, graças a Deus, vive e goza saúde. Era a terceira vez que, numa sessão espírita, médiuns em transe acusavam a presença, a nosso lado, de uma senhora que afirmavam eles, dizia ser nossa mãe. O “Caboclo das Sete Encruzilhadas”, porém, bradou:

- Quem é então ? Tem de falar ! Há de incorporar e dizer quem é. Despertou-se então o Sr. Zélio de Moraes e o Dr. Meirelles recomeçou o seu esquisito debate com a senhorita Zaira. Ao fim de minutos, caíram em transe simultâneo aquele médium e uma moça clara, de bom corpo, vestida com elegância. Esta saltou com fúria e tombou de flanco, batendo rijamente a cabeça no solo, onde, por momentos, ficou estendida. Tornaram-se mais bruscos, então, os movimentos da senhorita Zaira.

Iniciando, com calma, a conversa com o Sr. Meirelles, o médium Zélio, entrou, depois, a queixar-se de violências que lhe estavam fazendo dizia, caboclos e pretos invisíveis para nós, e, acendendo-se em cólera contra a nossa pessoa, chamando-nos “careca”, disse que, com os seus companheiros ali incorporados as duas médiuns, anda a seguir-nos, com o intuito de prejudicar o nosso serviço e a nossa vida, desde que fizemos, nesta reportagem, uma injustiça ao centro da rua Laura de Araújo.

O Dr. Meirelles, começando a compreender quem éramos, convidou a entidade presente a definir a injustiça por nós praticada. A resposta foi que havíamos dito que, naquele centro, o trabalho espírita é remunerado.

- Mas é ou não verdade ?

- Não é !

Arriscamos, então uma frase em nossa defesa , contestando-nos o médium:

- Ninguém é obrigado a dar. Dá quem quer.

- Foi o que noticiamos.

- Mas não devia ter noticiado ! objetou o médium.

- Por quê ? O jornalista não cometeu uma injustiça. Disse uma verdade.

- Mas essa verdade prejudicou o Centro fazendo com que muita gente o abandonasse.

A moça clara, de pé, debatia-se em fúria, segura, pelos braços, por dois cavalheiros e a senhorita Zaira protestava:

- O Encruzilhada não é aquele que esteve ali. Sou eu !

O médium em transe, dirigindo-se ao diretor dos trabalhos, considerava:

- Você acha que o espiritismo não pode ser pago. Mas quem não tem emprego, como é que há de fazer espiritismo ?

E, continuando, desenvolveu, em favor do centro da rua Laura de Araújo, argumentos semelhantes aos que ouvimos, no Centro José de Araújo, à rua Dr, Bulhões, formulado por um dos dirigentes daquela associação. Dirigiu-se, em seguida, às duas moças, chamando-as, respectivamente, João e Eduardo. Acalmou-se a senhorita Zaira, e a outra, a clara, escapando-se dos braços que a amparavam, caiu sentada na cadeira.

- Bem. Vou-me embora ! Vamos, João !

Vamos, Eduardo ! convidou o Sr. Zélio.

Ergueram-se as duas moças, mas o Dr. Meirelles declarou:

- É inútil ! Não saireis daqui em estado de perseguir alguém. Escutai-me, e proferiu uma prece comovedora.

- Sou Sofia, disse o Sr. Zélio. Se for para nosso bem, iremos. Se formos enganados, pagarás. Vamos, João. Vamos Eduardo.

Despertaram-se, então, os três médiuns. Pediu concentração o diretor, e o Sr. Zélio, novamente em transe, curvado, numa linguagem deturpada, dizendo ser Pai Antônio, tomou as mãos de um enfermo, e, acompanhado pelos presentes, começou a cantar :

“Dá licença, Pai Antônio,
Eu não venho visitar,
Eu estou bastante doente
Venho pra me curar”.

Findo esse ato, e depois de um transe quase mudo da senhorita Severina de Souza, havendo o guia, como se disse, mandado que se realizasse um trabalho especial em benefício de um louco fugido do hospício e ali presente, declarou-se encerrada a sessão.

Retirando-se a assistência, foram afastados os bancos da sala e iniciados os preparativos para o trabalho especial. Só ficaram no recinto os médiuns, o louco, três homens que o acompanhavam e nós.

Uma senhorita, com um defumador fumegante, percorreu a sala, envolvendo cada pessoa em ondas de fumaça aromática, e a cantar, acompanhada pelos circunstantes, uma canção cujo estribilho era:

“Quem está de ronda é S. Jorge,

S. Jorge é que está de guarda !”

Entregou o defumador a um cavalheiro, que saiu para fora a agitá-lo, caminhou em duas direções e, voltando fechou a porta.

O Sr. Zélio, assumindo a direção do trabalho, ocupou, ao lado de seu pai, perto da parede, a cabeceira da mesa, ficando um médium. Por detrás do enfermo, “fechando a concentração”, sentaram-se o Dr. Meirelles e uma senhorita, e, formando a terceira fila, os três companheiros do doente, ladeavam a mesa as médiuns Severina de Souza e Maria Isabel Morse, enfrentando a senhorita Zaira e a elegante moça clara. A jovem que empunhara o defumador e nós que ocupamos lugares à esquerda da mesa.

Falando ao louco da mesa, disse o Sr. Zélio :

- Vamos fazer um trabalho para o senhor ficar bom. Pense em Deus. Como os senhor não pode fazer uma ideia de Deus, veja se consegue reproduzir na mente a imagem de Jesus.

Fez, com fervor, três orações; a Deus, a N.S. da Piedade, e ao Caboclo das Sete Encruzilhadas, e, convidando para começar, cantou, acompanhado pelos demais:

“Santo Antônio é ouro fino.
Arria a bandeira.
Vamos começar ! “

O canto, monótono, melancólico, desdobrando-se em toada embaladora parecia acariciar as almas. Não faltava majestade ao ambiente. O louco, de súbito, rompeu numa cantoria de sons inarticulados, e entraram em transe, atuadas,- disseram-nos, por protetores, as médiuns Isabel e Zaira. esta informou, então, ao Sr. Zélio que, no momento, duas entidades agiam sobre o doente.

- Deixa o aparelho e faz incorporar em um deles. Mando o outro para outra máquina. Conto contigo.

Instantaneamente, recobrou-se e caiu em novo transe a senhorita Zaira. Sacudindo-se, a vociferar, quis deixar a cadeira, mas foi dominada pela senhorita de vigia. Ao mesmo tempo, dando uma ruidosa gargalhada, a moça clara, num pulo, atirava-se de costas no solo, enquanto o louco, asserenando a face, emudecida.

Entraram em discussão a senhorita Zair, que dizia haver sido ” o padre Alfrêdo, vigário do Meyer”, e o Sr. Zélio. Sustentava aquela que perseguir alguém e encaminhá-lo, pelo sofrimento, para o progresso espiritual; e sofria ardente contestação de parte do último.

De pronto abriu o presidente “novo ponto” cantando o côro “Santo Antônio é Santo maior”. Erguendo-se a pouco e pouco do chão, a moça clara ocupou a cadeira, e, olhos fechados, encarando Zaira, acusou:

- Mentiste ! Nunca praticaste a caridade ! Não te acompanho mais ! Tu me arrastaste !

Falando aos protetores, pediu ao Sr. Zélio que levassem aqueles irmãos, “para o raio de luz” e o cântico entoado pelo coro reproduzia aos nosso ouvidos uma canção da macumba.

Sobre esse coro, cantando a meia voz, em tom arrastado, pairou, por alguns momentos, grave, em tom forte, vibrando, um canto que saia dos lábios de Zaira, e começava:

“Oremos. Glória in excelsis Déo !”

Variou, ainda uma vez, o coro, a senhorita Zaira gritou que iria mas voltaria; a moça clara, em gemidos lamentosos, implorou perdão, e, as duas, quase tombando, saíram de transe, enquanto todos bradavam:

- Viva Deus

Mas, sem demora, encurvaram-se em novo transe as duas médiuns. Ambas são moças muito gentis, mas, de face subitamente deformadas, com os maxilares avançando, ficaram quase horríveis. Caminhando dobradas em passos arrastados, com a cabeça abatida na linha dos joelhos, percorreram a sala e fizeram passes no louco.

Zaira, que descalçara os pés,e,por estar em transe, não havia, em estado consciente, assistido na primeira sessão, ao caso mediúnico relativo à rua Laura de Araújo, agora, na segunda, conversando conosco, fazia referências aos três espíritos então reputados presentes.

Tornadas as duas médiuns ao estado de vigília, o Sr. Zélio perguntou ao louco se estava melhor.

- Estou bem, respondeu ele serenamente.

- Bem. Vamos encerrar, disse o presidente, e o coro rompeu:

“Santo Antônio é ouro fino,

Suspende a bandeira,

Vamos encerrar”.

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