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Entrevista com um dos mais respeitados pais-de-santo do Brasil, Agenor Miranda Rocha emite opiniões corajosas sobre o candomblé.

Natural de Angola, foi poeta, intelectual, escritor, cantor lírico e educador, pai Agenor veio para a Bahia com 5 anos de idade. Ainda criança, recebeu, de Eugênia Ana dos Santos, mãe Aninha, a vocação para o candomblé. A vida do oluwô já foi registrada em um livro, de Diógenes Rebouças Filho (Pai Agenor , editora Corrupio, 1997), e, foi tema do documentário Um Vento Sagrado, com roteiro e direção de Walter Pinto Lima e Carlos Vasconcelos Dominguez. Pai Agenor faleceu no Rio de Janeiro, em 17 de Julho de 2004.

Nesta entrevista, concedida ao Jornal A Tarde, em 24/06/2001, Pai Agenor fala sobre muitos pontos polêmicos do Candomblé.

P – Quando e como surgiu sua vocação para pai-de-santo?

R – Não sou pai-de-santo, sou zelador-do-santo. O santo é que é meu pai. Eu acho esta nomenclatura (pai-de-santo) muito errada. Eu zelo.

P – Como o senhor vê, então, a utilização da nomenclatura pai-de-santo pelo candomblé?

R – Eu já encontrei isso quando fiz santo. Eu é que não me sinto bem em dizer que sou pai-do-santo. Para eles (algumas pessoas do candomblé), é uma glória dizer isso.

P – Voltando à sua vocação para zelador-de-santo, quando e como ela surgiu?

R – Eu tinha 5 anos. Na verdade, não fui eu quem procurou o candomblé, o candomblé é que me procurou. Minha família era toda católica, apostólica, romana, nunca “assistiu” a um candomblé. Nasci em Ruanda, capital de Angola. Vim para a Bahia com 5 anos. A vocação surgiu desde que eu nasci. Um africano disse isso para minha mãe antes do meu nascimento. Ela não acreditou, mas ele acertou em tudo. Ela me esperava para outubro, ele disse que era para setembro. Eu nasci no dia 8 de setembro de 1907. Disse que eu ia trazer uma mancha vermelha na cabeça. Eu trouxe. Quando chegamos aqui, na Bahia, eu fiquei para morrer. Os médicos desenganaram-me. Minha mãe Aninha, a que fundou o Axé Opô Afonjá, fez o jogo e disse que eu não tinha nada, que era o orixá que iria ser feito. Fez-se o orixá, em 1912, e eu estou aqui.

P – O senhor ocupa um dos mais altos postos no candomblé. Como atua um oluwô?

R – A mando dos orixás. Sem alarde e sem vaidade. Na realidade, o magistério é que foi minha carreira. Trabalhei no magistério 47 anos, e saí com pena. Eu nunca vivi do santo. Eu vivo para o santo. Até meu jogo de búzios, nunca cobrei. Não cobro, porque eu duvido um pouco dessa caridade cobrada. Ela deixa de ser caridade quando é cobrada. Eu sou feliz, os orixás me deram essa missão, mas me deram também uma profissão. Então, não há necessidade de eu cobrar.

P – Nesses seus 93 anos, houve algum fato, alguma experiência que o marcou? No candomblé, por exemplo?

R – Diversos. Teve um episódio na minha casa, no Leme, no Rio, em 1947. Eu sonhei com Xangô me dizendo que estava segurando a casa até eu me mudar, pois a casa iria desabar. Eu mudei às 5 horas. Às 7 horas, a casa desabou. Então, eu tenho que ter amor aos orixás. Não posso vendê-los, me aproveitar.

P – Na Bahia do Senhor do Bonfim, o sincretismo religioso está muito presente. Qual a sua opinião sobre o sincretismo, considerando que o senhor é um zelador-de-santo, filho de pais católicos?

R – Não há crime nenhum no sincretismo, porque, se não fosse o sincretismo, não haveria candomblé hoje. Essa é que é a verdade. As mães-de-santo e os pais-de-santo não querem o sincretismo. Mas tem que haver. Se não fosse o sincretismo, como é que o candomblé iria sobreviver até hoje? Teria morrido. Agora, eles não gostam quando eu falo isso. Mas eu falo o que sinto. Não falo pelos outros, falo por mim.

P – O senhor é devoto de Santo Antônio e de São Francisco de Assis e vai sempre à cidade de Assis, na Itália, venerar São Francisco. Como é que o senhor lida com isso dentro do candomblé? Existe preconceito?

R – Se há preconceitos, é com eles. Eu sou eu. Nunca tive conflito. E, agora, tem mais uma coisa: eu sou do santo, católico e espírita. Assim como na família: nem todos são iguais, mas convivem bem. Não é isso? É uma questão de fé.

P – O senhor tem uma veia poética Sua mãe era cantora lírica e seu pai, diplomata. Como surgiu sua ligação com a poesia?

R – É muito forte. Eu me acho poesia; então, olhando poesia, vou fazendo poesia e me sinto bem. Desde criança já fazia versos. Eu tenho um livro de poesia publicado com o nome de Oferenda. Gravei também um disco de ópera, um de fado e outro de canções napolitanas. Fui cantor. Cantei com Bidu Sayão. Éramos muito amigos.

P – O senhor fez poemas sobre o candomblé?

R – Não! No tempo que eu fiz santo, tudo era segredo. Hoje é que o candomblé está banalizado.

No meu tempo, não tinha nem vaidade nem essa divulgação.

P – Qual a diferença do candomblé do passado para o candomblé atual?

R – Bom, eu costumo, numa frase, mostrar: eu sou do candomblé de morim (pano de algodão muito fino e branco). Hoje, é candomblé de lamê (plumas, lantejoulas). Parece uma escola de samba.

P – O sacrifício de animais, um dos ritos mais comuns e simbólicos do candomblé, é contestado pelo senhor. Por quê?

R – Acho que é uma maldade. Os orixás, que são fragmentos da natureza, precisam de sangue? Matar os animais que representam a natureza? Matar, além de tudo, com uma faca, devagarinho, com cantiga, até chegar em uma palavra para tirar a cabeça do bicho. Não dá! Sou contra a matança. Na vida, tudo evolui com o tempo. O candomblé podia ter evoluído um pouquinho, ser mais moderado. O candomblé, hoje, é um luxo.

P – Quanto à humanidade, que perspectivas há para ela diante das espécies em extinção, do desmatamento e da poluição ambiental?

R – Desse jeito, vamos chegar ao caos. Destruindo a natureza, o homem acaba consigo mesmo. As pessoas deveriam seguir a evolução natural da Terra. Não deveriam ter tanta inveja, tanta sede de poder. Da sede do poder, nasce a inveja, que é um sentimento muito negativo. Destrói uma pessoa. Aconselho às pessoas a não terem inveja e a viver, cada um, com o que Deus lhe deu. Se eu não tenho inveja, quero que as pessoas subam e não que caiam. Cada um tem seu valor.

P – Que lembranças o senhor traz da época de Getúlio Vargas, quando trabalhou como técnico em educação?

R – Muita gente fala mal do Getúlio, mas eu só trago boas lembranças. Sempre me tratou muito bem, com muita amizade. Até mesmo carinhosamente. Então, não posso dizer nada. Trabalhei com ele em 1933, 1934 e 1935. Para mim, Getúlio era muito bom, era meu amigo e, para mim, meus amigos não têm defeitos.

P – Como é que está a situação política do Brasil hoje para o senhor?

R – Não me pergunte isso, porque eu quero sair daqui para o avião. Não quero sair daqui para a cadeia. Se a gente for falar o que sente… Eu acho que o Brasil poderia estar numa situação muito melhor, se nós tivéssemos no alto poder, mais patriotas.

P – O que o senhor está achando do documentário?

R – Quiseram que eu fosse estrela, e Oxalá consentiu.


Fonte: Gladys Pimentel
Jornal A Tarde 24/06/2001

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