sábado, 2 de novembro de 2013

OS BATIZADOS E CASAMENTOS ESPÍRITAS

Este fragmento do livro "O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda, de Leal de Souza, faz referência ao espiritismo, trazendo sua opinião sobre o assunto, mas também se refere a Umbanda, que na época, era de praxe falar "Espiritismo de Umbanda", ou "Linha Branca".

A celebração de batizados e casamentos em centros espíritas tem suscitado vivas discussões entre os adeptos da doutrina, e, apesar da condenação de muitos núcleos, os realizam instituições de grande responsabilidade, mesmo na Europa como, por exemplo, a Federação Espírita Belga.
Os que os combatem alegam que o espiritismo não deve ter ritual e assentam, assim, a sua oposição a tais atos, numa confusão originária do conhecimento incompleto da liturgia.
A celebração de um batizado ou de um casamento, na Igreja, é feita mediante um ritual, porém, o casamento e o batismo parecem-me, não são rituais, mas sacramentos, podendo-se, pois, nas Tendas espíritas, suprimir-se o que se considere ritualístico.
Aliás, ao que suponho, o ritual é o meio, o modo, ou a maneira uniforme de praticar certos atos, empregando-se tal designação quando esses atos, por sua natureza, são tidos como santos, sagrados ou referentes à Divindade.
O Espiritismo, na realização de suas sessões, obedecendo a praxes mais ou menos uniformes, obedece, por mais que se negue, a uma regra, ou ritual. Não haverá talvez, grave engano em admitir que os inimigos do ritual o são apenas aparentes, pois só desejam, na realidade, simplificá-lo, tirando-lhe a imponência e a pompa.
Desde que adotamos um princípio, dando-lhe o caráter de um culto religioso, é natural que procuremos associá-lo aos atos principais de nossa existência, sobretudo quando a tradição herdada de nossos maiores os ligava a religião e ao templo. Compreendo, pois, a celebração desses cerimoniais, nas Tendas de espiritismo.
Exigem os pais do batismo, pelas reminiscências católicas, pelo prestígio atávico das tradições, pela forca irreprimível do hábito secular, tendo a impressão que os filhos, enquanto não lhes derramam na cabeça a água lustral do batismo, estão fora do rebanho de Deus, e os presidentes dos centros, para que os seus companheiros não recorram aos padres, acabam transigindo. Às vezes, porém, são esses presidentes, com frequência transformados em padres sem batina, que aconselham o batismo espírita, impondo-os, docemente, a tolerância dos confrades.
Os espíritos, não raro, pedem para celebrar o batismo das criancinhas, e na Linha Branca não é difícil, mas até comum, ver o trabalhador do espaço descendo pela primeira vez para integrar-se num núcleo terreno, dar o nome e pedir para ser batizado. Conheço casos de espíritos que há muitos anos trabalham em nossos centros, fazerem-se batizar.
O batismo, nas Tendas, é, em geral, feito por um espírito incorporado, que o celebra com singeleza e rapidez, mas já vi um presidente de Tenda batizar um velho trabalhador do espaço, a convite, ou pedido deste.
Não vejo inconveniente em celebrar, numa casa onde se invoca Jesus, um ato a que Jesus se submeteu. Acharia, porém, que a significação religiosa da cerimônia deveria emprestar-se um sentido humano, assumindo os padrinhos da criança, de modo formal, perante os guias, o compromisso de auxiliar o seu encaminhamento no mundo, substituindo, como pais adotivos, os pais que viessem a falecer, deixando o filho em condições desfavoráveis de fortuna, e em menor idade.
Em relação ao casamento, como sou dos que entendem que o crente deve em todas as ocasiões solicitar as bênçãos e graças divinas, não censuro, antes aplaudo, os centros que o realizam.
A celebração nupcial consiste, geralmente, numa suplica, feita pelo presidente do Centro, ou por um espírito incorporado, pedindo assistência misericordiosa de Deus para o novo casal.
Os próprios materialistas e o Estado leigo reconhecem a necessidade de efetuar o casamento civil com um cerimonial tendente a impressionar fundo os nubentes, para que a recordação sempre nítida dessa solenidade, vibrando na alma de cada um dos cônjuges, avive, nas circunstâncias várias da vida, a consciência de suas mútuas responsabilidades e deveres para comigo e sua prole.
Não vejo, por isso, inconveniência alguma em celebrar casamentos espíritas com certa majestade estética, segundo a cultura e os hábitos dos noivos e os do meio em que se realizam.

Fonte: O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda. Leal de Souza. Rio, 1933.

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