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A saúde, a cura, os adeptos e a Umbanda

"Apreendemos ao longo de nosso trabalho que as pessoas procuram a umbanda para resolver diversos tipos de problemas, sejam eles de saúde ou não. Um grande número de pessoas, por motivo de doença, recorre aos cultos umbandistas em busca de alívio para doenças do corpo e aflições da alma. A Umbanda se aproxima da promoção da saúde quando se constitui como rede de apoio, oferecendo "serviços" de cura, atuando nas diversas classes sociais, mesmo onde se tem acesso ao sistema de saúde oficial, incluindo o SUS( Mello e Oliveira 2012)." 
Em diversos bate papos informais entre os médiuns da Tenda, no espaço intra muros do templo, varias vezes ouvimos que "a Umbanda é o SUS espiritual". Realmente, para aqueles que talvez já tenham passado por diversas denominações religiosas, ou sejam até adeptos das mesmas, e apenas recorrem aos "serviços" religiosos da Umbanda, como se fosse um pronto socorro, onde acham alento, alívio, carinho de nossos guias espirituais, amparo espiritual e um amigo que lhe ouça, e também lhe dirija alguns conselhos, e talvez, de acordo com seu merecimento, ajude a conseguir a cura para sua doença.
A questão da cura de doenças dentro da Umbanda, para nós, que somos seus adeptos, sempre esteve ligado a fé em nossos guias espirituais e Orixás, sem deixar de lado algo que nos remete ao grupo umbandista do templo em que se faz parte. Para o leigo, longe da realidade das religiões afro brasileiras, fica um pouco difícil de entender esta questão, mas tento de alguma forma explicar.
Dentro do espaço do terreiro existe algo, por nós denominado "família religiosa", ou seja, todos os integrantes da Tenda, desde seu dirigente espiritual, até o mais simples membro da corrente mediúnica, que talvez esteja dando seus primeiros passos na caminhada religiosa na Umbanda. O vínculo existente entre estes membros, as vezes chega a superar os laços da família consanguínea, dando identidade a esta
pessoa, que deixa de ser apenas mais um cidadão comum, e passa a ser "fulano do guia tal", acrecido de sua função no templo, onde existem diversos cargos a serem conquistados, sempre com muito esforço e dedicação, ganhando prestígio em seu grupo, e vendo seu trabalho ao próximo ser coroado com reconhecimento do grupo.
Então, a fé, associada a nova identidade, e consequentemente, o sentido em sua vida, faz com que venhamos a confirmar as diversas pesquisas realizadas pela ciência, onde em diversas publicações se constatou que o "povo de terreiro", ou seja, os adeptos das religiões afro, incluindo a Umbanda tem menos problemas de saúde, recorrendo menos a medicina convencional.
Quanto aos seus frequentadores, mas que não guardam vínculo com a religião, também experimentam os benefícios terapêuticos da Umbanda, através de seus guias espirituais, incorporados nos médiuns, ministrando doses de axé, ou força vital aos que recorrem ao templo, como nos diz Laplantine:
"Para a umbanda o que faz a pessoa ter saúde ou adoecer é a manutenção ou o enfraquecimento do axé (palavra africana que significa força vital). O axé é transmitido às pessoas nos rituais pelas várias entidades espirituais que descem nos médiuns (fiel que faz a intermediação entre as divindades e os pacientes). Na sessão, a entidade se utiliza do corpo do médium (incorporação) e por meio dele realiza a consulta. A cada consulta tanto o fiel quanto o paciente recebem axé" (Laplantine, 2001).
A religião de Umbanda, em verdade, não se preocupa se sua clientela é convertida ao umbandismo, ou se seja apenas simpatizante, ou até venha procurar auxílio como último recurso(o que é mais comum), após ter passado por todas instituições religiosas aceitas como "politicamente corretas" pela sociedade hipócrita em que vivemos. A Umbanda não faz questão de converter ou arrastar adeptos para as suas fileiras, pois os templos que realmente praticam a Umbanda, sabem que quantidade não significa qualidade, e praticar Umbanda, significa doação, prestar a caridade, auxílio ao próximo, bebendo nas águas límpidas do cristianismo, em seus ensinamentos: "Amar o próximo como a si mesmo", e do "Dai gratuitamente o que gratuitamente recebestes", o que faz de seus trabalhadores, pessoas que, antes de qualquer coisa, estejam em um templo pensando primeiramente no próximo, para depois pensar em si mesmos.


Fonte de pesquisa: Saúde, religião e cultura: um diálogo a partir das práticas afro-brasileiras.
Márcio Luiz Mello e Simone Santos Oliveira. Artigo  disponível em:  www.revistas.usp.br/sausoc/article/download/76497/80237


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