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Matrizes da Umbanda

No meio de tanta informação (e desinformação), fica difícil aquela pessoa pouco acostumada a Umbanda, de definir o universo umbandista dentro de um terreiro. Quando uma pessoa chega pela primeira vez a um terreiro, se depara com imagens católicas no altar -a maioria das tendas as utilizam-, os atabaques, cânticos, rezas, o linguajar embrulhado dos Caboclos e Pretos Velhos, enfim, e toda uma gama de símbolos presentes nos terreiros. Assim, fica evidente logo na chegada, que a Umbanda é uma religião carregada de elementos de outras, principalmente das seguintes matrizes:
  • A Umbanda tem influência católica, se utilizando do sincretismo entre Orixás e Santos católicos, assim como algumas rezas, entre outros elementos.
  • Conta com grande parte de sua estrutura pelos elementos do africanismo, como o culto aos Orixás (sendo estes cultuados e entendidos de uma forma renovada na Umbanda), o uso dos atabaques, das comidas de santos, e da presença marcante dos Pretos Velhos.
  • Tem grande presença ameríndia e Indo-europeia, marcado pelos Caboclos, nossos ancestrais desta terra, os índios.
  • Tem grande influência da doutrina codificada por Allan Kardec, o Espiritismo.
  • Tem ainda elementos de outras culturas, como dos ciganos, dos induístas, e uma forte influência, que vem pela Macumba Carioca, a qual colocamos um adendo especial.
 E falando sobre a macumba carioca, temos um texto de Pai André de Xangô, do Terreiro Tio Antônio
    A Macumba Carioca
    terreiro da macumba carioca na década de 1950

    Com a abolição da escravatura em 1888, o governo brasileiro deu a liberdade aos milhares de escravos que havia no Brasil sem um plano de apoio as novas condições a que os negros foram submetidos. Enquanto escravos tinham tratamento de saúde ,alimentação e moradia, libertos perderam esses direitos e tiveram que viver por sua própria conta. Consta que no Rio de Janeiro de então havia cerca de 1500 negros libertos, a estes foram se juntar um contingente muito maior formados pelos libertos das fazendas de café e cana de açúcar existentes no em torno da cidade avançando pelo interior passando pelo Espírito Santo e sul da Bahia. Estes negros vinham para a cidade grande atraídos por melhores condições de emprego já que as fazendas preferiam contratar mão de obra branca de imigrantes europeus.

    O contingente negro baiano, que chegou ao Rio de Janeiro através da migração interna, no final do século XIX, atraído pelas condições da cidade, devido à sua modernização como capital da República e à sua fama de tolerância, vai modificar substancialmente a fisionomia da cidade, incrementando traços próprios de sua cultura. Esses migrantes vão se localizar perto do Cais do Porto, Saúde e Gamboa, onde a moradia era mais barata, não só por já ser local de fixação de outros grupos negros, mas, sobretudo pela proximidade do porto, onde podiam mais facilmente encontrar empregos na estiva. Aí formaram uma comunidade conhecida como a Pequena África, onde suas manifestações culturais puderam ser preservadas, legando à cidade um valioso patrimônio cultural, destacando-se especialmente através da música e da religião.

    Trouxeram para o Rio de Janeiro, através da migração, o culto dos orixás. Com eles chegaram muitos líderes religiosos e grupos festeiros, responsáveis pelo desenvolvimento dos Candomblés e por inúmeras associações carnavalescas.

    A área onde se instalou essa comunidade constituía-se em uma das partes mais antigas da cidade e, por esse motivo, encontrava-se abandonada pelos setores dominantes. Eram velhos casarões, transformados em casas de cômodo, as conhecidas “cabeças de porco” ou cortiços, que também se estendiam pelas adjacências da Praça Onze e adentravam o centro da cidade.

    Esse Rio de Janeiro, eminentemente negro, afrontou a elite dominante carioca, que seguia o modelo europeu. A única forma de branquear a cidade e torná-la compatível com a ideologia positivista foi a de iniciar o processo de modernização, mandando demolir os prédios antigos, afastando dessa forma seus ocupantes.

    O projeto modernizador da cidade, implementado a partir do início do século XX, obrigou o translado de vários grupos para locais então periféricos. Com o centro da cidade demolido, surgiu a opção para a Cidade Nova. As favelas, construídas com materiais dessas demolições, absorveram grande parte dessa população. Outro contingente expressivo se encaminhou para os subúrbios cariocas, como Madureira, Coelho da Rocha e outras localidades da Baixada Fluminense.

    Agenor Miranda da Rocha, conhecido como Oluo (adivinho), escreve suas memórias, vivenciadas em mais de noventa anos, enumerando e localizando as primeiras casas de santo do Rio: Mãe Aninha de Xangô funda sua Casa no bairro da Saúde em 1886, depois transferida para São Cristóvão, instalando-se definitivamente em Coelho da Rocha; João Alabá (Omolu), na Rua Barão de São Félix, Saúde; Cipriano Abedé (Ogum), na Rua João Caetano; Benzinho Bamboxê (Ogum), na Rua Marquês de Sapucaí.

    Uma das comunidades Jêje encontradas no Rio de Janeiro à época era a de Rosena de Bessein (Azinossibale); africana natural de Allada, que funda o terreiro Kpódagbá no bairro da Saúde, que foi herdado por sua filha- de- santo Adelaide do Espírito Santo, também conhecida como Untinha de Olá (Devodê), que tornou – se a Mejitó do terreiro e transferiu a Casa de santo ou Terreiro para o bairro de Coelho da Rocha. Com o falecimento desta Mejitó (sacerdotisa), assumiu Glorinha de Oxum, mas conhecida como Glorinha Tokueno, herda o terreiro, e atualmente o Kpádagbá está localizado na Rua Julieta nº. 12 – Abolição. Então fruto dessa migração interna e desse assentamento de comunidades negras se misturam em profusão ritos e cultos de diversas nações.

    Candomblés diversos, adivinhos, terreiros de Omoloko, Casas de Cabula, adivinhos, feiticeiros de todos os matizes, pajelanças etc.

    Tudo isto é colocado dentro de um mesmo caldeirão religioso que se tornou a cidade do Rio de Janeiro. Junte-se a isto o Espiritismo que aqui chegou por volta de 1873, trazido pelas elites e logo absorvido pelo caldeirão. A cidade então ferve misticismo, tudo é feitiço e magia. Proliferam em abundancia as casa espíritas chamadas de centros, mas também aumentam o charlatanismo e a mistificação.

    Havia o culto as deusas do mar, prática disseminada nas colônias de pescadores existentes m toda a Baía de Guanabara . Viviam todos muito calmos, sem saber do resto do mundo. Enfim, uma classe à parte, com festas próprias, que não se afasta do oceano e é unida pelo culto do mar. Havia colônias só de portugueses, como a de Santa Luzia e de Santo Cristo, de portugueses e brasileiros, como em Sepetiba, de italianos apenas, e de brasileiros sómente. Uma série de núcleos ligados pela crença. São outros homens. Nascem de mães pescadoras, partejadas quase sempre por curiosas, vivem nas praias, nunca as abandonam. Aos quatro anos nadam, aos dez remam e acompanham os parentes às pescarias, e assim passam a existência, familiarizados apenas com as redes, os apetrechos de pesca e o calão, o pitoresco calão marítimo.

    “O oceano imprime-lhe um cunho especial, são propriedades do mar. Nunca reparaste nos pescadores? Têm os pés diferentes de todos, uns pés contráteis que se crispam nas pranchas como os dos macacos; andam a bambolear, balouçando como um barco, e a sua pele lustrosa tem o macio grosso dos veludos. A alma dessa gente conserva-se ondeante, maravilhosa e simples.Não há nenhum que não tema a Mãe D'água, a Sereia, os Tritões e não respeite a Lua.”Existiam três manifestações desse culto. A Mãe D'água entre os pescadores de Santo Cristo e de Santa Luzia, a da Lua e do Mar e a do Arco-Íris.
     Enfim, sob estas influências e neste ambiente que temos as primeiras manifestações da Umbanda, onde nossos guias começam por baixar nas mesas espíritas dos centros Kardecistas, onde eram convidados a se retirar, e também nos cultos de origem africana, nos Candomblés e nas macumbas, onde eram recebidos, quase sempre com intuitos de aproveitá-los para trabalhar em suas feitiçarias, até que em 1908, o Caboclo das 7 Encruzilhadas através de seu médium, Zélio Fernandino de Moraes coloca-se como um divisor de águas, e funda, ou menciona pela primeira vez o vocábulo Umbanda, fundando assim, uma nova religião, e a separando das demais religiões afro da época, apesar das influências destas na Umbanda.

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